quinta-feira, outubro 28, 2010

LP solitário procura


A família do Ju Metal estava se mudando para uma nova casa, na Riviera do Lago.O centro de Araxá estava insuportável para o seu pai. Quarenta e dois carros passando em sua rua a cada dez minutos, este foi o último registro antes da explosão de nervos paterna que havia causado a mudança de casa. Cada integrante da família recebeu uma tarefa a fazer, para que a mudança pudesse se processar em apenas um dia. Como Ju Metal, do alto de seus dezenove anos mais seis meses de faculdade, era muito ligado em música, sua tarefa foi juntar tudo que fosse relacionado a música nas caixas de papelão esperando por ele.
Das suas mexidas, surgiram um mini teclado branco da Casio, uma flauta quebrada, cinco radinhos de pilha nos mais diferentes estados de conservação, fruto da paixão de toda a família pelo futebol. Sua irmã mais velha, Lucinha, viu Ju Metal começando a querer pegar sua coleção de posters do Menudo, New Kids on the Block e outros, mas ainda não estava na hora de cortar o cordão umbilical com sua adolescência já meio distante. Esta parte ele deixou para ela encaixotar. Depois de uma gaitinha, alguns DVD´s de shows e um monte de CD´s de todos os tipos, Ju Metal se deparou com uma capa de CD gigante. Com um cara vestido de duende, em um jardim, cercado de duendes mesmo, de verdade, das histórias de ficção. Lá dentro estava o tal, o cd diferentão, como ele nunca havia visto antes na história desta vida dele. Mas não era bem um CD. Era maior. Preto com um buraco no meio. O tal do disco devia ser de um tal de George Harrison, esse era o nome na capa. Foi perguntar ao pai dele o que era aquilo.
Depois de receber uma comovida explicação sobre esta obra-prima musical, que quase foi marcada por lágrimas de seu pai que quase caíram, Ju Metal entendeu o valor da coisa. Um único problema: junto desta informação, também recebeu a informação de que não havia mais em casa uma “vitrola” para tocar este disco. E depois de um breve sentimentalismo, seu pai o deixou sozinho de novo.
Quando Ju Metal me contou esta história para que eu a escrevesse aqui, fez questão de ressaltar este momento como o mais importante. Ele me pediu para que eu colocasse em negrito, em itálico, em “CAPS LOCK”, em todas as cores do arco-íris, que eu entrasse nesta história, mas que não deixasse de destacar o mais importante: que o LP, provavelmente tendo criado vontade própria depois de anos empoeirado e largado, quase carregou Ju Metal pela cidade de Araxá, em busca de uma vitrola para ser tocado.
A primeira parada foi na casa de seu primo Rafa. A família toda muito moderna, cada um com seu toca-MP3 na mão, TV de led no centro do entretenimento da casa (ou “entreterimento”, como diziam erroneamente cinco colegas seus).Sua impressão se confirmou, e o LP até pareceu ficar mais frio em sua mão. A tecnologia engolia os aparelhos antigos no máximo a cada 3 anos. Para não guardarem velharias, deixavam tudo em frente de casa, para algum passante sortudo pegar. Ju Metal agradeceu e junto do LP Solitário, foi para a segunda parada em busca da desejada vitrola.
Chegaram na casa do Digê, amigo das antigas de seu pai. Dono de uma coleção com mais de trinta mil “bolachas”, iguaizinhas ao seu LP Solitário. Depois de uma calorosa recepção e uma prosa introdutória de vinte minutos sobre algumas das histórias dos discos, Digê chegou com uma informação completamente inesperada:sua vitrola estava no conserto desde o ano passado. Uma tristeza na vida do Digê, que alimentava muitas amizades na base da cervejinha e castanha de caju no fim de tarde, mas que sem a presença da vitrola, era como as casas de noveleiras sem televisão.
Depois das despedidas, quase não acreditando no seu infortúnio, Ju Metal foi para o Barreiro dar umas corridas no Lago Norte. Quatro voltas depois, descansando no banco em frente de seu carro e olhando as águas do lago, por um segundo pensou em mandar a bolacha para um passeio. Sentiu uma cutucada nas costas. Era Ed Motta, muito gordo, cansado depois de cem metros de caminhada, da lojinha que vendia doces até o banco onde Ju Metal estava sentado.
Aconchegou-se, abriu sua vitrola ano 2010 cor de verde água e pediu o LP Solitário para Ju Metal.Escutaram o LP por algumas horas, acompanhados de um bom vinho. George Harrison se eternizou ainda mais.
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