domingo, maio 23, 2010

Futebol é amor, não é guerra


Desde o primeiro momento em que resolvi abordar este tema, pensei em escrever logo na primeira frase: gosto do Dunga como pessoa. Para não deixar nenhuma dúvida de que, caso eu venha a ter a oportunidade de conhecê-lo, ele já sabe que este aqui tem simpatia por sua figura. Mais que simpatia, eu admiro sua carreira, é um vencedor como poucos. Daqueles que têm um objetivo na cabeça tão sólido que nada o abala. Acho também que o Brasil e o brasileiro devem, a cada dia, prestar atenção na forma como tratam seus ídolos. Devemos assistir à trajetória do pensamento até o momento em que se transforma em palavra, e caso a palavra não tenha sido de nosso agrado, tratemos de corrigir isso logo. Ou seja, ao falarmos de Dunga, Ronaldo e Romário, para ficarmos só em exemplos mais recentes, é preciso lembrar apenas de: Copa de 94, capitão, Fenômeno, Melhor do Mundo 3 vezes, maior jogador da história dentro da área, exemplo de superação, vencedores. Quando pensamentos envolvendo estas palavras aparecerem em nossas cabeças, devemos deixá-los brotar em palavras. O resto se descarta, já no pensamento.
Dado o devido reconhecimento ao passado destes grandes brasileiros, vamos ao tema de hoje. O futebol é um esporte com mais de 100 anos de história. Quem começou a praticá-lo lá na China, ainda sob o nome de cuju, ou na Inglaterra um pouco mais tarde, certamente não poderia imaginar que os donos da riqueza não seriam mais apenas os nobres. Ou os barões do comércio. Que os donos das mansões seriam também as estrelas do futebol. Essa já é uma mudança grande na forma como este esporte interage com a sociedade. Porém, uma das grandes vantagens do futebol brasileiro em relação ao resto do mundo foi sempre tratar a bola com carinho. Com verdadeiro amor. Da mesma forma que Picasso, Paul McCartney ou Niemeyer, em outras artes, nossas gerações ininterruptas de gênios da bola colocam sempre muito amor em seu relacionamento com a bola. Uma partida das super novidades Ganso e Neymar nunca é igual a outra. Ao prestar atenção nas reações dos adversários do Santos, um dia após as partidas, é fácil perceber a empolgação de quem pôde assistir mais de perto a mais esta geração de gênios da bola. Sim, pois quando o Santos joga contra o time de alguém, em vez de gerar rivalidades históricas o que tem acontecido são narrações das pinturas realizadas na noite anterior. Por tudo isso, futebol é amor, não é guerra.
E assim eu chego à conclusão da coluna de hoje. Quando o nosso caro Dunga divulgou a lista dos 23 convocados para a Copa do Mundo da África do Sul, ressaltou, durante grande parte da entrevista, o amor à pátria. “Eu amo o Brasil. Já morei fora e quis voltar por causa das minhas raízes. Por causa da minha brasilidade.” Mas quando o treinador da Seleção ressaltou o amor à pátria, de uma forma que fica parecendo estar acima do amor ao futebol, contraria o que nos deixou únicos no mundo do futebol: a beleza plástica. É muito provável que, mesmo não tendo começado a Copa do Mundo, muitos brasileiros prefiram ficar com o escrete canarinho de 82 que com a seleção vencedora da Copa de 2010, mesmo que isso aconteça. E se futebol é amor e não guerra, o brasileiro certamente prefere ver Ganso, Neymar, Ronaldinho Gaúcho, Tardelli, Hernanes que uma seleção composta pelos 23 que mais têm amor à pátria. Brasileiro não quer ver guerra, quer ver amor. Brasileiro não quer ter que torcer para um dos sete meias defensivos se machucar, para entrar Ganso ou Ronaldinho Gaúcho. Mas, mesmo sem querer, vai se pegar nesta torcida. E isto não é amor. Por isso, Dunga, meu caro Dunga que admiro, espero que este texto chegue a suas mãos algum dia, e lhe ajude a batalhar pela beleza plástica do futebol. Esta,com certeza, será uma luta que vai além da pátria.
Postar um comentário