terça-feira, dezembro 12, 2006

Papo de barbeiro

Senta no cadeirão. Uenc-uenc-uenc. Barulho do ajuste do cadeirão, uma das preciosidades do estabelecimento, mas precisando de um pouco de óleo para lubrificar.
Joãozinho Veterinário de um lado, fazendo o " serviço" com o Menestrel.
Barba e cabelo pro Joãozinho Veterinário hoje.
No outro cadeirão, senta Manoel da Padaria.
A turma de sempre.
Barba, cabelo e bigode, no caso do Manoel.
O Loiro é quem comanda os serviços neste cadeirão.
De um lado, um grande perguntador como o Manoel.
Do outro lado, grande proseador o Joãozinho. Sabedoria animal.
Anos de experiência na veterinária, além do ouvido afiado no barbeiro, capturando os causos todos.
Manoel se vira e lança:
- Joãozinho, quantos anos você tem?
Joãozinho aproveita o cruzamento e escora de cabeça, numa rápida trajetória até o gol:
- Manoel, espero que pelo menos uns trinta.
Manoel solta a risada irônica:
- E na outra perna? Trinta também?
Joãozinho fazendo aquela cara de " eu sabia que seria mal-interpretado-mas-o-efeito-era-este-mesmo". Desta vez, dominando a bola no meio-campo e entrando no gol com a bola e tudo:
- Caro Manoel, você me perguntou quantos anos eu tenho. Esta pergunta me faz pensar em só uma coisa. Quantos anos tenho " pela frente". Se você tivesse me perguntado quantos anos eu já vivi, teria recebido uma outra resposta. Mas do jeito que eu vou indo, trepando todo dia, sem fumar, caminhando lá na beira do lago cinco vezes por semana, e ainda com a peteca aos Sábados, calculo: pelo menos uns trinta.
Manoel, como bom ouvidor das prosas do Joãozinho, confirma a aceitação da explanação:
- Faz todo o sentido, Joãozinho. Aliás, o que faz, sentido nesta vida pra você?
Joãozinho, aumentando ainda mais o placar:
- Manoel, sua amizade faz todo o sentido. A barba e cabelo do Menestrel faz todo sentido. E não é pela barba e cabelo. É pelo clima daqui. A vida não é só um grande resultado financeiro. Tem o social. Tem o barbeiro. E o boteco do Clarimundo. Ano que vem eu programo uma viagem com a patroa. Grande companheira a Terezoca. Vamos viajar de navio, tirar as teias do paletó, que tá conseguindo ter mais pó que aquela mesinha ali do Menestrel. Revista Manchete, Menestrel, até hoje? A Luiza Brunet tava começando, olha lá ela, com 18 anos. E o que dá pra gente ler, o resto já tá tudo rasgado. Você tinha que virar médico, Menestrel.
Era esse o sonho do Menestrel. Mas a barbearia foi uma herança do pai, Seu Salustiano.
A vida passou, e ele continuou fazendo barba, cabelo e bigode.
Todos os dias.
No caso do Joãozinho, só barba e cabelo.
Hoje foi a pergunta de número nove mil, quatrocentos e vinte e dois do Manoel.
Menestrel renunciara a prosa, e tornara-se uma figura folclórica.
Folclore,matemática e silêncio.
Coisas de barbeiro.
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