terça-feira, dezembro 26, 2006

Um dia de José Clemente Divario

( para os que começaram a leitura dias atrás, aviso: a postagem está concluída.)

7:00 José Clemente Divario acorda para um café da manhã olhando para seu pequeno paraíso em forma de vista para o mar. Já tem esta rotina há quatro anos, quando tomou a principal decisão de sua vida. Ou era esta decisão, ou uma ponte-safena, a escolha era dele, como dizia Dr. Oliveira, seu cardiologista quando morava no Rio de Janeiro. Dezesseis horas por dia de trabalho era algo tão comum a ele quanto misturar os ingredientes do pão para um padeiro. Fichinha, moleza. Celular, lap-top, bip, palm, tudo ao alcance da palma da mão e dos neurônios em transe em sua cabeça. Só ele não sabia.
Ao cortar uma maçã, primeira de doze frutas de seu café da manhã, ele relembra seu antigo cotidiano e não entende como vivia daquele jeito. Mesmo passados quatro anos, ainda levita pensando nisto, com o pensamento de " hey, eu realmente consegui sair daquela correria".
Barba, escovação de dentes, e lavada na cara com a cortesia da água corrente. Sua casa é muito simples.

8:00 Diferentemente do cotidiano do Rio de Janeiro, sua prancha jamais pega teia de aranha. Lá vai Zé Clemente para mais uma sessão de surfe. Geralmente consegue pegar umas quatro, até seis ondas boas a cada manhã. E lá estão na praia o Renatinho Goma, o Luis Enceradeira, a Clarinha, o Rubens Lima Naves, todos surfando. No meio das ondas, Zé Clemente, em estado memorialista, pensa que se ainda estivesse no Rio de Janeiro, estaria ganhando, já nesta primeira hora, uma média de duzentos reais. Era muito dinheiro. Ele não tinha tempo para pensar no que fazer com aquilo tudo. No meio das ondas, ele sabe que precisa de muito menos dinheiro para viver, e que as amizades que fez não têm preço. Os duzentos reais por hora ele quase não gasta na semana inteira. Procura mesmo é por experiências. Estas ele sabe que irá levar para as suas outras vidas.

9:00 Quarenta e três anos nas costas, com pouquíssimo dinheiro para suas pretensões antigas cariocas, mas uma enormidade para seu momento atual, Zé Clemente se prepara para mais um dia repleto de nada a fazer.Ele sabe que este nada deverá ser completado com várias histórias inusitadas. Elas sempre aparecem. Por isso, vai o banho para tirar a areia do mar, lá na duchinha da Barraca do Zé da Caetana, que já prepara os peixes para os clientes do dia. Coloca o papo em dia, e não aguenta, dá umas dicas de negócios para o da Caetana. Na sua opinião, a barraca ganharia muito com uma piscininha para crianças. Seria a primeira do local. Da Caetana fica com um pé atrás, mas escuta a idéia do amigo carioca. Zé Clemente sai, rumo a uma caminhada de praia inteira, neste paraíso de 10 quilômetros, perto de Garopaba, litoral catarinense dos mais belos brasilis.

10:00 A caminhada é feita por um cidadão daqueles raros de consciência tranquila. Zé Clemente considera-se hoje um vencedor. Mas em busca de mais um algo mais. Afinal, a prainha de Rubamvava * já foi uma grande vitória. Ele ouviu falar dessa prainha 10 anos antes, em conversa com executivos da indústria da pesca de Santa Catarina, que ás vezes usavam o refúgio para acalmar os ânimos, além de fazerem negócios no local. Pois quatro anos antes, na grande decisão de sua vida, lembrou da conversa, procurou por fotos e informações do local, tirou férias. Aumentou inicialmente as férias de uma semana para um mês. E no final do mês achou sua casinha em frente ao mar. Comprou, foi ao Rio de Janeiro somente para acertar sua rescisão, e mora em Rubamvava desde então. Puf. Uma trombada. Em mais uma sessão memorialista no dia, ô dia memorialista este, deu de cara com uma senhora loira, devia ter uns sessenta anos.
Perdão, minha senhora, mil perdões- confessa Zé Clemente para a já risonha senhora.
Deve ter sido fruto do destino, meu "carro".Eu também estava divagando com toda velocidade. "Prrazer". Rita Hubinger- disse a alemã de uns sessenta anos, mais ou menos.
Realmente, com uma praia com esta imensidão, só pode ter sido fruto do destino mesmo. A senhora mora aqui?- curiosa normalmente Zé Clemente.
Sim, sim, casei-me com o Lucio faz 6 meses. O Lucio é pescadorr aqui. E me pescou- ri Rita, ri Zé Clemente.

11:00 A conversa se estende junto com a caminhada. Zé Clemente conta sua história para Rita Hubinger. Revela que pratica desde o ano passado sua mais nova paixão: o artesanato. É o que faz após o almoço. Rita conta de seus dois casamentos anteriores, com alemães, um bem-humorado que se tornou muito amigo. O outro, carrancudo demais para suas pretensões. Carranca esta que originou uma viagem solitária de Rita a Rubamvava, ela conhecia a praia através de fotos de blogs de amigos brasileiros. E nesta mesma praia, conheceu Lucio, um pescador solteirão uns dez anos mais novo, que por ela conheceu a paixão na mesma intensidade.
Zé Clemente, durante a conversa com Rita, já projeta, no seu futuro próximo, uma amizade consistente com a alemã. Rita é o tipo de pessoa que ele costuma admirar, a que quebra preconceitos, encara os súbitos de coragem de frente e vai à luta. Além de tudo o sotaque, junto com a cultura dela, a torna mais divertida ainda. Já quase chegando o meio-dia, e Rita ainda conta que havia conhecido Lucio ao perguntar a ele se alguns dos peixes davam bons sashimis. Os olhos se encontraram, e o romance logo havia começado. Já José Clemente Divario é um homem realizado, mas que no amor não tem pressa. Conta a Rita que só se casará se achar uma super mega ultra alma gêmea. A Rita retribui com aquele olhar de experiência.

12:00 Depois um pouco de meio dia, Rita e José Clemente completam os dez quilômetros, e cada um vai para sua casa. Tendo uma variedade diária de peixes a escolher, e sendo fã de frutos do mar, José Clemente escolhe para o cardápio do almoço um peixe ao molho de camarão. Tudo com aquele preço camarada do pescador Eric. Mas com o pensamento já em descobrir e prestigiar os peixes do Lucio, afinal o marido de Rita Hubinger só pode ser uma pessoa interessante. Passa por sua cabeça preparar e comer o almoço, trabalhar um pouco seu artesanato, que está com três barquinhos por acabar, e depois ir na vila dos pescadores pra conhecer o pescador de Rita Hubinger.
Na cozinha de sua casa, ele possui uma mesa para dez pessoas, local onde ele costuma reunir seus amigos para cervejada com frutos do mar e partidas de Barricada, um jogo que ele trouxe de uma de suas viagens executivas à Tailândia. Na mesma mesa é onde ele prepara suas refeições, cortando os ingredientes e limpando os peixes. No rádio passa o programa do Zeca Boca de Microfone, sujeito muito popular na região, e que mistura bom papo e entrevistas com músicas de qualidade. Ao escutar este programa, cortando os alimentos e pensando na incrível Rita Hubinger morando tão perto, Zé Clemente mais uma vez acredita que solidão é um bicho que pode ser solto, só dependendo do dono querer soltá-lo. Através do seu artesanato e das andanças praianas, Zé Clemente vai soltando esse bicho. O artesanato apenas ajuda sua cabeça e suas necessidades sociais , porque fonte de renda duradoura mesmo ele conseguiu com seus anos estressantes de executivo. Foram muitas e muitas horas ganhando duzentos reais por cada uma delas. A economia de Rubamvava tem agradecido.

13:00 Dos seis cômodos da casa, a cozinha é o ambiente preferido do Zé Clemente. Fica lá quando precisa, e quando não há nada a fazer. A varanda em frente ao mar com sua rede importada de Fortaleza também concorre diretamente pelo posto de ambiente preferido da casa. Mas Zé Clemente, conversando silenciosamente, sempre acalma a cozinha dizendo que ela é seu ambiente preferido interno. E a varanda é o ambiente preferido externo. Com isso ele consegue sempre harmonizar a cozinha, que retribui continuamente com belas refeições e boas risadas dos amigos. A cozinha é mais ciumenta que a varanda, relaxada pela brisa do mar.Não são exatamente frutos do esotérico tais conversas com os ambientes. Zé Clemente acredita no respeito a tudo. Ao corpo, ao meio ambiente, aos ambientes de sua casa. Ás emoções das pessoas. E é este pensamento que o povoa agora. Pensa como fará para que Lucio, o pescador sortudo de alemã culta Hubinger, o receba da melhor forma possível, sem brechas para coçadas na cabeça imaginando chifres ilusórios.

14:00 Depois de arrumar a cozinha, de cultivar o inflado ego da cozinha e o ego zen da varanda, Zé Clemente vai para o Divã Rio, o ambiente escolhido em sua casa para a prática do artesanato. Este é o ambiente que mais muda em sua casa. Recebeu este nome por três motivos. Primeiro motivo: ele queria nomear o ambiente que seria o local de tanta criação, mas não queria perder muito tempo. Foi logo então no seu sobrenome, Divario, para buscar inspiração. Segundo motivo: de Divario, separou Divã de Rio. Divã, pois sabia que suas criações artesanais seriam um belo substituto aos consultórios. Que assim como Forest Gump com seu Wilson, poderia ter vários bonequinhos para disfarçar de companhia, com a única diferença que a solidão no seu caso era opcional, e rara. Mas uns wilsonzinhos certamente ajudariam. Terceiro motivo é o Rio, de Divario, para lembrar sua terra natal. Afinal, por mais que ele cultivasse uma paz interior e um estilo de vida saudável, jamais passou por sua cabeça esquecer as raízes de sua vida. Divã Rio, o ambiente dos artesanatos de sua casa. Zé Clemente está praticamente finalizando um dos três barquinhos incompletos. Para a inspiração do dia, imaginou Lucio e Rita Hubinger num passeio romântico-pesqueiro no barquinho. Isso tudo faz parte da preparação para o encontro de mais tarde. Zé Clemente aprendeu a dar valor e diminuir a velocidade do primeiro encontro. Seja ele um encontro para uma amizade duradoura, um amor cup noodles, ou um relacionamento mais intenso com um dos ambientes de sua casa.
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O relógio de José Clemente Divario avisa: são 15:00. Hora de prosseguir a estória em outro blog...
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Esta postagem, entitulada " Um dia de José Clemente Divario", conta um dia deste ex-executivo carioca em três blogs. Neste blog aqui, foi contado o dia das 7:00 ás 15:00. Depois, até meados de Janeiro, será contado o período das 15:00 ás 23:00 no blog da Ghiza Rocha , e provavelmente até o final de Janeiro ou antes do Carnaval, o período de 23:00 até as 7:00, terminando o dia do Zé Clemente no blog da Monica Santos )
* A praia de Rubamvava é fruto da imaginação do autor. Qualquer coincidência com a realidade terá sido a mais incrível coincidência.
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